É hora de sair do Spotify: um passo-a-passo
Entenda os escândalos e os investimentos em armas letais do CEO do Spotify, com um guia prático para escapar da engrenagem.

Olá, meu nome é Vivian Caccuri. Sou artista plástica e musicóloga, e esta newsletter é dedicada às minhas pesquisas sobre fenômenos culturais que atravessam a música, o som e a escuta. Nesta edição, eu queria manter o sarcasmo de costume, mas mais um círculo distópico se fechou e eu não estou achando a menor graça no que li:
O dinheiro que deveria remunerar músicos e artistas do Spotify está sendo investido no desenvolvimento de armas letais como drones aéreos e marítimos com autorização para matar, governados por inteligência artificial. Sim, é isso mesmo: enquanto artistas recebem frações de centavos por stream, Daniel Ek, CEO da plataforma, financia sistemas autônomos de destruição com o lucro da empresa.
Aqui, vou traçar um breve panorama dos principais escândalos envolvendo o Spotify e contar como foi minha experiência de abandonar a plataforma, transferindo todo meu acervo para outro serviço.
A fraude dos artistas artificiais
Há pelo menos dois anos antes do investimento em questão, Daniel Ek já estava sob os holofotes, mas por motivos diferentes. O livro Mood Machine escrito pela jornalista independente Liz Pelly, explica como um sofisticado esquema que favorece músicas de “artistas fantasmas” foi secretamente implementado na plataforma com o objetivo de alavancar seus lucros. Funciona assim:
O Spotify firma parcerias com estúdios que produzem músicas de baixo custo com artistas humanos ou artificiais e compra grandes volumes desses catálogos. Esses catálogos ficam fora do arranjo padrão de pagamento de royalties da plataforma.
O catálogo é oferecido ao time de editores e curadores que plantam as músicas falsas nas maiores playlists oficiais do serviço de streaming, aquelas com milhões de ouvintes diários.
As músicas falsas “roubam” ouvidas das músicas verdadeiras, reduzem o número de reproduções das legítimas e por consequência, o valor a ser repassado aos artistas reais cai. Os ganhos dessa “redução de custo” são revertidos para investidores, acionistas e executivos.
Liz Pelly começou a compreender melhor o esquema quando resolveu investigar o artista sueco Ekfat, teoricamente um produtor de “ambient” e “lo-fi” que faz parte de várias dessas playlists oficiais. Pelly nunca conseguiu provar a existência de Ekfat ou encontrar o endereço verdadeiro dos selos atribuídos a ele e a outros artistas suspeitos. Mais adiante, ex-funcionários da plataforma de streaming revelaram a ela mensagens que corriam internamente na empresa, altamente comprometedoras.
O ouvinte pela metade
A implementação do esquema fraudulento só foi possível pois o Spotify tinha evidências estatísticas que a grande maioria dos usuários usava a plataforma como um ruído de fundo, estão “meio que ouvindo música, mas não muito”, e por isso ignorariam as músicas falsas por serem “suficientemente escutáveis”: são faixas musicais funcionais pois não destoam do conjunto, se camuflam em inexpressividade.
“É do interesse financeiro das plataformas de streaming desencorajar uma cultura auditiva crítica entre os usuários, enfraquecendo as conexões entre artistas e ouvintes, para assim inserir com mais facilidade trilhas sonoras genéricas e baratas, aumentando suas margens de lucro no processo.
Não é difícil imaginar um futuro em que o desgaste contínuo dessas conexões dissolva por completo o papel do artista, preparando o terreno para que o público aceite, sem resistência, músicas produzidas por softwares de inteligência artificial generativa.”Liz Pelly, em seu artigo “The Ghosts in the Machine” na revista Harper’s
O Spotify acredita tão veementemente na irrelevância do capital social do artista, que implementou o modelo de negócio do Discovery Mode. O modo é acionado quando o botão shuffle é clicado duas vezes (imagem) e permite o ouvinte a “descobrir” novas músicas fora da playlist ou álbum.
Mas este é um grande problema. Para o artista poder ser selecionado no Discovery Mode ele precisa sacrificar mais uma fatia de seu pífio pagamento. Se no modo normal cada ouvida lhe gera US $0.003, no Discovery Mode se acredita que o valor seja próximo ou menor que US $0.001. E é claro: no Discovery Mode não faltam fantasmas, bots e fakes, diminuindo ainda mais a monetização do artista real e aumentando a margem de lucro do Spotify.
“Quero o melhor para a Europa”, disse Ek
Que as big techs estão todas sentadas à mesa com Trump e com a extrema-direita mundial, nós já sabemos. Nos aplicativos de maior uso, estamos sem qualquer alternativa minimamente ética, escolhendo dentre Elon Musks e Zuckerbergs qual vai lucrar com nossas informações, fornecidas a eles de graça por nós mesmos. Mas acredito que essa relação tóxica atingiu um novo patamar: Daniel Ek encontrou uma forma inédita de capitalizar, pervertendo as relações culturais e históricas entre músicos e público, ao mesmo tempo que as instrumentalizou para financiar a indústria bélica.
Há alguns meses, o Financial Times divulgou uma reportagem sobre os 600 milhões de euros investidos pela Prima Materia, fundo comandado por Shakil Khan e Daniel Ek, na empresa alemã Helsing, especializada em inteligência artificial para uso militar. O investimento foi uma espécie de resposta à crescente demanda por sistemas de defesa diante da guerra na Ucrânia. Além disso, a Suécia, sede do Spotify, se tornou membro da OTAN em 2024 e recomendou aos seus cidadãos que se preparassem para a guerra.
Todo país têm direito de se defender, não me leve a mal, mas quando essa defesa vira oportunidade de negócio para bilionários da tecnologia às custas de artistas, acho que é quando passamos do ponto. Embora a Prima Materia seja legalmente independente do Spotify, o elo entre o aporte financeiro na fabricante de armas e o serviço de streaming é difícil de negar: o Spotify continua sendo, de longe, a principal e maior empresa controlada por Daniel Ek.
O jornalista Ted Gioia rastreou as movimentações financeiras de Ek a partir de registros da SEC (órgão regulador do mercado financeiro dos EUA), analisando as vendas de ações do Spotify realizadas no último ano, o primeiro ano lucrativo desde sua abertura de capital em 2018. A soma resultante é compatível com as grandezas e datas de aporte na Prima Materia e Helsing, e se não houverem fortunas escondidas (sempre possível) os dados públicos apontam que a participação do sócio de Ek é consideravelmente menor.
O underground pode estar patrocinando a guerra
É difícil ter qualquer tipo de certeza sobre os dados financeiros do Spotify, pois a empresa opera em opacidade tal qual a visão de um míssil orientado por AI na água turva. Ainda assim, cruzando informações de fontes diversas, é possível sustentar uma hipótese incômoda: quem está financiando, indiretamente, os investimentos de Daniel Ek na guerra é o underground. Sim, o artista independente, o produtor de música eletrônica, a banda experimental, os catálogos de nicho:
A plataforma passou a desmonetizar músicas com menos de 1000 reproduções anuais, excluindo milhões de faixas do pagamento de royalties.
Também introduziu um modelo de “bundle” com audiolivros, cuja nova estrutura reduz a fatia destinada à música dentro da assinatura.
E tudo isso sob o argumento de “sustentabilidade” e “otimização”, linguagem demagoga para cortes que afetam principalmente os pequenos criadores, afinal, com os grandes artistas de grandes gravadoras (= advogados pit bull + seguidores fanáticos + promoters bicudos), não se brinca!
Como sair do Spotify
Eu resisti muito tempo a sair do serviço pois eu tinha milhares de horas em playlists e álbuns na minha biblioteca, são frutos de pesquisas, indicações de amigos e descobertas felizes no mundo físico, por isso, abandonar totalmente os serviços de streaming de música me parecia drástico; a perda afetiva, difícil de imaginar. Mas com uma boa plataforma alternativa e um recurso que migra todo seu catálogo do Spotify, é impossível vir com qualquer justificativa para continuar financiando Daniel Ek.
Depois de ouvir muitas opiniões, eu elegi o Qobuz (não pensem que eu estou patrocinada, aliás, Qobuz, me notem!). Ela pertence a uma empresa francesa que afirma pagar US $ 0.01873 para o detentor do direito autoral, seis vezes mais que o Spotify. E o melhor: não financiam drones assassinos. Vamos:
Baixe o aplicativo da plataforma alternativa (Apple Music, Tidal, Deezer, Qobuz, etc) e escolha sua opção de assinatura.
Faça uma conta em um serviço como Soundiiz, TuneMyMusic ou FreeYourMusic, eles são plataformas que migrarão todas as suas playlists e álbums da conta do Spotify para a conta da nova plataforma. Você precisará conectar as duas contas de streaming nesse serviço, é muito simples uma vez que você abrir a conta.
Eu escolhi o Soundiiz. Depois que fiz transferências de álbuns, playlists, artistas e faixas avulsas, chequei o relatório e refiz as transferências de todos os registros que apontavam “erro” ou “not found”. Muitos deles foram encontrados com sucesso, mas de fato, algumas perdas serão inevitáveis já que os catálogos não são idênticos. Este tutorial mostra tudo com detalhes.
Como eu tenho pânico de perda da minha memória, salvei tudo que não foi encontrado como .csvs (um arquivo de texto que registra listas e nomes) para ter um backup. Futuramente posso tentar incluir o que não foi encontrado, pois catálogos tendem a crescer. Estou em período de transição, usando o Qobuz como plataforma principal e tendo a conta do Spotify disponível caso coisas importantes tenham ficado pra trás. Mas isso vai ser rápido e minha conta do Spotify vai sumir em poucos dias.
Infelizmente, é necessário pagar para fazer os serviços de migração a partir de uma quantidade de faixas. Mas acho que é um pouco feio reclamar agora, prefiro aceitar como uma punição financeira por ter sido uma verdadeira acomodada e sem vergonha. Agora me sinto livre, mas não sei até quando.
Até a próxima!
Vivian Caccuri
Fontes




Deixei no Spotify e aderi ao YouTube Music pq, em uma assinatura, eu resolvo streaming musical com acesso a covers e ainda elimino propagandas do Youtube, tudo de uma vez. Mas, se for pra boicotar CNPJ por causa da capivara do dono/fundador/CEO... Vou ter que voltar pras cavernas. No mundo capitalista de hoje, é difícil você conseguir listar seu CNPJ numa bolsa sem ter que deixar rastros de sangue pelo caminho. Não tem empresa boa.
Eu migrei tudo para o YT music. Como tenho o premium e para mim, o YT é um acervo gigantesco, fez mais sentido. Migrei, reconstruí minhas playlists, refiz minhas capinhas e pronto. Mas, o motivo de ter saído do spotify era simplesmente evitar mais uma assinatura. Não preciso de tantas.